A moderna escultura maconde
13/04/1973
II
No que se refere às máscaras, eram únicas em toda a África Oriental, na proliferação de formas e estilos. Usadas durantes os rituais de inicição e em outras cerimónias mágico-religiosas, eram talhadas em madeira mole ou dura e ornamentadas com fibras e cabelos verdadeiros, ou, na sua falta, com imitações em couro. As escarificações figuravam-se por tiras de cera. Incluíam-se os brincos e as rodelas labiais femininas, pelele.
Wembah-Rashid propõe em tentativa a divisão das máscaras e estatuetas macondes em quatro tipos: as faciais, as talhadas em forma de elmo, as que representavam mulheres com peitos e em estado de gravidez e as que figuravam um casal deitado, ao qual operadores escondidos e seguindo o ritmo dos tambores, imprimiam os movimentos de coito.o mesmo autor, considera típicas dos macondes de Moçmabique apenas as máscaras em forma de elmo, talhadas em madeira leve e mole como a do embondeiro, escondendo a cabeça de dançarinos que dramatizavam perseguições e correrias, com espantoso talento terpsicórico.
Abrimos um parêntesis para duvidar que assim fosse. Entre outros estudiosos, Soares de Castro fez específica referência às «caraças» ou carrancas para tapar apenas a face, vulgarmente de semblante sombrio, feio, horrendo. Foram essas máscaras, consideradas secretas, encontrando-se estreitamente associadas ao complexado mapico, símbolo de um espírito defunto, masculino ou feminino, ressurgindo das entranhas da terra e utilizado pelos homens para aterrorizarem e dominarem tanto as mulheres como os adolescentes não iniciados, que os contemplavam à distância, impossibilitados de repararem nos pormenores.
Segundo Jorge e Margot Dias, o mapico seria a figura central da cultura maconde. No entanto, esta sua afirmação tem sido, não contestada, mas merecedora de maior desenvolvimento porque não deixaram suficientemente esclarecido, como se relaciona a figura com a ideologia das relações entre os sexos, como as danças e máscaras reflectem os valores estéticos prevalecentes, como as representações se conjugam com o culto dos antepassados e fomentam os vínculos entre as diversas povoações, como, enfim, fornece um padrão de valores culturais comuns a um povo que não possuía unidades políticas centralizadas.
Dada a manifesta propensão dos escultores macondes para as representações caricaturiais e a possível veracidade da tradição que afirma serem as máscaras regularmente destruídas, só pelos exemplares conservados em museus é possível apurar que o estilo nelas empregado foi em grande parte influenciado pelos contactos com asiáticos e europeus e tem evoluído no sentido de maior realismo e individualismo. Surgiram na verdade, máscaras reproduzindo tipos caucasóides, uniformemente coloridas a ocre ou tintas variadas, com predomínio absoluto de tons claros.
No que se refere à escultura ornamental em objectos de uso cerimonial e doméstico, concentrava-se em bustos quase miniaturas, talhados em cabos de bastões e rolhas de cabeças, tabaqueiras e polvorinhos, etc., e reproduzindo as escarificações tegumentares e os botoques labiais característicos do grupo, Pires de Lima diz ter visto lanças de ébano com embutidos de metal e, ainda, um chocalho de ébano ornamentado que tinha por missão avisar o povo da passagem do chefe da linhagem. Parece-nos que esta afirmação destrói o argumento segundo o qual o uso do pau - preto teria sido introduzido pelos europeus.
Além das estatuetas representando espíritos demoníacos, talhadas em pau de mandioca, existiam também figurações de ofídios, sendo esses ofídios como entre outros povos da Província, considerados como autênticas encarnações dos antepassados. É esta, decerto, a explicação nexo mulher-serpente, frequentemente encontrado na escultura maconde.
Convém acentuar que na África Oriental, o uso de estatuetas era corrente em várias cerimónias. Cory documenta, em relação ao antigo Tanganhica, a sua presença nos rituais das sociedades secretas de iniciação, tanto masculinas como femininas. Também Jorge Dias alude a figuras que parecem ter sido empregadas durante os ritos da puberdade.
Nas estatuetas com fins religiosos certos elementos do corpo não eram reproduzidos segundo as suas proporções reais, mas segundo a importância do papel que lhes era atribuído: por exemplo a cabeça, sede do pensamento; os orgãos genitais, centro de reprodução; as mãos, autoras das preces aos antepassados; os pés, instrumentos de marcha. Era quase sempre dado relevo ao rosto, estranho e destacado do conjunto como se de máscara se tratasse, enfeitado com numerosas incisões, representando as escarificações e os cabelos. As pálpebras semi-cerradas conferiram-lhe um aspecto algo sonolento. Quando era representada, a tatuagem do corpo copiava a vida real, ou seja, mais rara e simples do que a da face.
A escultura maconde (relacionada nas classificações de arte africana, com o complexo estilístico Baluba) revelava, como dissemos, um grande domínio da técnica de trabalho em madeira e, sobretudo, uma extraordinária capacidade de concepção. Entre a maioria dos povos do leste africano o escultor não conseguia libertar-se do toro onde trabalhava, traindo, pela forma cilíndrica, pela carência de proporções, pelos braços unidos ao corpo, a quase completa sujeição à matéria-prima. Os macondes constituíam honrosa excepção pois sabiam laborar a madeira em sentido veradeiramente artístico e prenhe de realismo. Dotados de grande poder de criação, a sua arte era profundamente original.
Redobra a nossa admiração por este vigoroso talento plástico quando sabemos que as ferramentas utilizadas, de fabrico local, aram assaz primitivas e ineficientes para talhar madeiras densas e rijas.
Não surpreende que já antes de 1900 começassem a surgir em museus da Alemanha e da Suíça exemplares da arte maconde. Baseados neles, outro crítico, William Tagg, pode afirmar que «as mais belas estátuas da África Oriental eram outrora devidas aos macondes».
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