A moderna escultura maconde
17/04/1973
III
O nato talento escultórico dos macondes parece haver sofrido simultâneamente estímulo e decadência em contacto com outros povos, quer indígenas, quer alienígenas.
Estímulo graças à introdução da moeda e à criação de mercados de compra e, sobretudo, ao contacto com diferentes tipos humanos não raro representados caricaturalmente (arrogantes guerreiros angónis, melífluos comerciantes asiáticos em atitudes de ganância, autoridades europeias com nariz adunco, sorriso desdenhoso e ventre proeminente, etc.) e, finamente, ao uso de novas ferramentas e matérias-primas, como o marfim e o pau-preto tão raramente empregados na escultura tradicional. Passou sobretudo, a ser sistematicamente preferido o ébano, essa madeira nobre e de tão longa história, levada para Tiro, mil anos antes da nossa era, empregada por Salomão no aformoseamento do templo, exigida como atributo à Etiópia pela Pérsia.
Os novos bustos e as novas estatuetas com frequência revelam beleza, harmonia e humanidade, representando pessoas entregues a hábitos predilectos e tarefas quotidianas. Conservavam em profusão, as tatuagens e escarificações faciais e, igualmente, os olhos semelhantes às das máscaras lipico. Nas figuras humanas, continuou a sobressair a marcada indiferença pela proporcionalidade real. Curioso é notar que nas representações femininas, jamais surgem traços que suscitem ideias de desrespeito, sensualidade ou simples humorismo. Reflexo, sem dúvida da ascendência a mulher na vida familiar e da veneração devida à matriarca. Da escultura animalisma ressuma finura, elegância e intuitos de estilização.
Por outro lado, a degenerescência é devida à aceitação das sugestões difundidas pelos agentes locais da civilização ocidental ou das velhas civilizações asiáticas, com os seus valores artísticos específicos.
O mesmo Felisberto Ferreirinha, em 1949, na altura da sua exposição na Sociedade de Estudos, já centuava penalizado, essa evidente degradação.
Também Jorge Dias notou que a arte maconde tinha desaparecido há cerca de 40 anos e que em Moçambique «se manteve até mais tarde, embora nos últimos decénios tenha sofrido forte influência dos contactos com a cultura europeia, degenerando em parte, em arte turística».
Na verdade, nos anos mais recentes, passou a assitir-se a uma verdadeira inundação do mercado por bustos e estatuetas macondes em pau-preto, apenas uma minoria revelando continuidade e vitalidade do talento tradicional. A maioria é desprovida de qualquer valor artístico. Podem a este abastardamento verificado em Moçambique aplicar-se as observações do grande crítico, William Fagg.
«Assistimos à morte do que há de melhor na arte africana… quando os africanos abandonam as suas tradições em matéria de escultura tribal e começam a esculpir para os europeus… passa instantâneamente a surgir um estilo uniforme que, da costa ocidental à oriental, apresenta ligeiras variações… o resultado é inevitavelmente «arte de aeroporto», corrompida pelo comercialismo».
Pois revelando mais uma vez, o génio escultórico que caracteriza a sua etnia, uma pleíade de artistas macondes, embora evoluíndo para formas mais modernas, abriu uma brilhante excepção neste panorama geral de degenerescência.
Ainda não chegou ao conhecimento do nosso público, o desabrochar da moderna escultura maconde, desabrochar que tão surpreendente impacto vem causando nos meios artísticos internacionais.
É uma escultura expressionista, que combina formas zoomórficas e antropomórficas, fazendo largo uso de distorções deliberadas e de ênfases morfológicas. Também sabe recorrer a fantasias e abstracções. Afirma-se representar com frequência, disformes e semi-animalescos ogros do folclore tradicional e, ainda, espíritos relacionados com as crenças mágico-religiosas do grupo.
Os artistas mais dotados e sensíveis, usam a abstracção para exprimir os seus sentimentos e traduzir as circunstâncias da sua vida pessoal. Livres de inibições e marcadamente individualistas dão largas à sua imaginação criadora, produzindo peças de rara beleza. Distinguem-se nela dois estilos: o chetani-com ênfase na representação dos espíritos demoníacos e disformes do folclore tradicional e o niama, que representa figuras humanas sobrepostas ou engalfinhadas em atitudes patéticas.
Os temas eróticos surgem frequentemente, tanto nas obras figurativas como nas abstractas, tanto disfarçados sob símbolos como apresentados de maneira inequívoca, ainda que sempre respeitosa.
Ressurge com evidência, o carácter sagrado e integrador que continua a ser dado à sexualidade, essa potência transcendente que emana do Deus Criador e que ultrapassa as simples funções biológicas de propagação, essa explosão de exuberância e de vitalidade primordial que rompe triunfantemente as cadeias impostas pelo ego e que se distingue, de modo absoluto, do prazer e da excitação carnal.
Pelos temas, pela composição, pela técnica, é uma escultura «única no continente africano, quer pela multiplicidade das obras, quer pela variedade dos estilos».
Cada peça é uma autêntica criação, expressão duma mensagem espontânea, nascida numa tradição cultural onde a emoção continua a imperar.
~ Fim do Artigo ~