A moderna escultura maconde
Lourenço Marques, quarta-feira, 25 de Abril de 1973
V
Interessantes são também os comentários formulados por Walter Battiss; conhecido artista e crítico de arte no país vizinho. Considerou a moderna escultura maconde como uma arte nova e surpreendente com a sua invulgar combinação de formas baseadas não apenas no folclore e nas crenças religiosas tradicionais, mas igualmente na imaginação criadora de artistas desinibidos e prenhes de individualismo. Um tema frequente é a associação da mulher e da serpente. Mas não se verifica repetição monótona. A personalidade de cada artista traduz-se em grandes variações técnicas. Fica-se surpreendido com o arrojo do escultor, embora a absoluta confiança no talento pessoal produza obras de raro ritmo e beleza. Picasso, a quem fez chegar fotografias, não escondera o seu entusiasmo.
Devemos igualmente fazer alusão ao inquérito pessoal realizado pelo Prof. Garry Thomas que durante uma visita à Tanzânia, procurou apurar se o estilo chetani teria quaisquer raízes tradicionais. Depois de notar que nem na obra monumental do Prof. Jorge Dias nem no Museu da Sociedade de Geografia de Lisboa encontrou referências ou exemplares desse estilo, narra que se deslocou a Mahurunga, a sudoeste de Mtawra do rio Rovuma, local onde o europeu Norman Kirk, além de explorar uma plantação e uma pequena fábrica de sumo de fruta, tinha ao seu serviço mais de 150 escultores macondes. Trabalhavam em grupos de quatro a seis, recebendo à base de peça produzida. O empregador calculou em 20.000 xelins tanzanianos o total das remunerações mensais pagas. Nesta altura do seu relato, o autor faz uma afirmação de maior interesse: esses macondes tinham emigrado em busca de trabalho remunerado.
Examinando mais de 100 peças e não encontrando quaisquer sinais de estilo chetani, decidiu recorrer a outro método de contacto. Perguntou aos escultores quanto recebiam por peça do estilo binadamu. Entre 4 a 7 xelins, conforme o tamanho. O visitante garantiu-lhes então que na capital, os seus congéneres chegavam a receber 50 xelins por peça. Os Macondes, depois de indagarem que tipo de escultura ali se fazia, riram-se ao ouvirem a resposta: ao estilo chetani. Mas não manifestaram qualquer interesse quando ele lhes foi explicado. Garry Thomas decidiu então, especificar alguns dos maiores nomes da escultura chetani. Quando pronunciou o nome Samaki, foi informado que tinha ali trabalhado há cerca de um ano e meio e que ainda ali vivia um seu irmão. Na opinião dos presentes, Samaki, embora fosse bom escultor, estava longe de ser considerado o melhor. Respondendo a mais perguntas, informaram-no que tinham sido os Portugueses que haviam sugerido aos Macondes a representação de pessoas e animais, e que, outrora, os seus antepassados apenas esculpiam máscaras.
Para rematar a interessante visita, Garry Thomas teve a oportunidade de entrevistar o proprietário da plantação que estivera ausente. Sim, lembrava-se de Samaki. Era um homem conflituoso, dado à embriaguez e à sedução de mulheres alheias. Uma noite, armado de um tronco de ébano, tinha tentado destruir a palhota de um colega. Finalmente fora obrigado a despedi-lo, a pedido dos seus próprios conterrâneos. Sim, recordava-se que Samaki por vezes lhe surgia com estranhas figuras exibindo olhos deslocados, pernas distorcidas, orifícios no abdómen, etc. rejeitou-as sempre atribuindo-as a eventuais crises de delírio etílico.
A terminar o seu pequeno escrito, o Antropólogo americano, com gélida objectividade científica, levanta algumas questões: se bem que os símbolos usados na moderna escultura maconde, possam ser baseados na escultura tradicional, até que ponto pode ela ser considerada como uma expressão cultural, sendo como foi, criada por artistas afastados do seu contexto tradicional? Não é concebível que mestre Samaki tenha encorajado outros conterrâneos a seguires o seu exemplo, exemplo que tão lucrativo se revelava? Tratando-se de uma escultuta desenvolvida por incitações comerciais, merecerá na verdade, a fama de que presentemente goza? Seja como for,o caso de Samaki, pode, em seu entender, comparar-se a artistas como Picasso que romperam com a tradição e vieram a beneficiar de sucesso e projecção.
Outro crítico que, em data mais recente, se debruçou sobre a moderna escultura Maconde, foi Roger Fouquer. O conteúdo do seu livro- que abre com um poema de Noémia de Sousa- reveste-se de carácter psicanalítico, tentando o autor aprofundar e compreender os impulsos interiores que teriam levado os artistas a procurar formas de expressão diferentes das habituais.
Logo no “avant-propos” nota que a autêntica Arte Africana, se vincula em tradições e culturas que conservam toda a potência emotiva. Para que persista ou renasça é indispensável que as raízes do artista sejam tão profundas que o habilitem a resistir, incólume, aos vendavais vindos de outras civilizações e de diferentes direcções. O fenómeno Maconde exemplificaria a tese do Historiador Tonybee acerca do “florescimento da cultura em resposta a um desafio”, seria uma evasão estética prenhe de inspiração criadora, revelaria uma espantosa capacidade de adaptação conducente à remodelação do passado, de harmonia com os condicionalismos presentes, passado ainda dominado pela casualidade mágica que ultrapassa o aparente.
~ Fim do Artigo ~