A moderna escultura maconde
30/04/1973
VI
Terminada esta exposição das opiniões expressas por diversos críticos e estudiosos, ocorre-nos desde já avançar que as tendências para o rompimento com o estilo formal estereotipado e naturalista parecem representar uma constante da escultura maconde. Basta atentarmos em duas esculturas cujas fotografias reunimos. Uma, que vimos num estudo de Soares de Castro, representa possivelmente um criado com ar servil, sem braços, com enormes calças compridas atingindo-lhe o pescoço, talvez visando ridicularizar a importância excessiva dada a essa peça de vestuário, outra, um busto, demonstra um assombroso talento caricatural.
Não há dúvidas que Samaki, pelo seu comportamento na plantação, se revelou um elemento marginal e desrespeitador das normas e valores prevalecentes no agregado tribal e, como tal, veio a ser segregado pelo próprio grupo a que pertencia. Estará quiçá aí, a explicação do seu inconformismo artístico e as causas de génese no movimento a que se tem chamado “ a moderna escultura maconde”.
Cremos também haver uma linha de pesquisas que poderia contribuir decisivamente para esclarecer as origens do estilo chetani: a que viesse aprofundar a influência do “polidemonismo” e das crenças religiosas na cultura tradicional dos macondes. M. V. Guerreiro no seu pequeno dicionário traduz, lichatwani e lichatani (palavras com flagrantes semelhanças com chetani) por “espírito mau”.
Segundo G. Cota, o polidemonismo apresenta entre os macondes, aspectos especiais. Além de reconhecerem, como outros povos setentrionais, a superioridade de Tari, o demónio hiperpotente que habita nos embondeiros e nas águas das lagoas, crêem que todos os espíritos dos defuntos, podem revestir características satânicas, tomando então o nome genérico de lioca.
O mesmo autor, em outro trabalho, torna a aludir a essa característica, afirmando que nenhum grupo étnico usa e abusa do demonismo como os Macondes e Andondes. Não só crêem em demónios-naturais, como em demónios-almas, podendo estes ser tantos quantos os defuntos (gumbi-gumbi) seus antepassados. Esses demónios familiares desempenhavam a importante funçaõ de obrigarem ao conformismo e à aceitação dos valores tradicionais. Puniam atrozmente a mulher adúltera e o jovem não cincuncisado. Transmitiam os seus desejos por meio de possessão. Preferiam o embondeiro como abrigo. Os demónios naturais mais notáveis denominavam-se nkongo, chitimbe e chimbula. Eram eles que inspiravam os médicos-mágicos.
Mais científicas, são as informações que nos presta Jorge Dias. Segundo este etnógrafo, entre os Macondes, os espíritos dos defuntos tanto podem ser benignos como malignos. Os espíritos benignos, isto é, os que praticam o bem e protegem os vivos da sua linhagem, chamam-se machinamur. O singular desta palavra: lichinamu, significa também “estatueta de madeira”, comprovando que a escultura maconde nasceu da necessidade de representar as imagens religiosas dos antepassados. Outrora só o humu, conselheiro da linhagem e medianeiro nas pendências, podia autorizar a confecção de estatuetas, sendo os infractores, severamente punidos.
Abrimos um parêntesis para notar a relativa semelhança desse termo com o correspondente suaile binadamu, empregado por Garry Thomas para fazer referência às esculturas representando seres humanos.
Continuando, por sua vez, os espíritos malignos dividem-se em diversas categorias:
a) Machatuani (sing. Lichatuani), espíritos tornado escravos por outrém por artes de feitiçaria e nessa qualidade utilizados em acções nefastas.
b) Espíritos perversos que praticam exclusivamente o mal, como aquele que é designado por nandenga.
c) Espíritos macabros, mapico, que aterrorizam as mulheres e os não iniciados.
Parece não restarem dúvidas, de que os criadores da “moderna escultura maconde”, designada nos escritos anglo-saxónicos por chetani, procuraram representar os espíritos malignos de segunda categoria.
Resta-nos no entanto, o enigma das figuras sobrepostas-niamas, onde não descortinamos raízes na escultura tradicional.
Fazemos ardentes votos para que Margot Dias consiga trazer novas elucidações à contenda, nesse quinto volume ainda em preparação, integrado na grande monografia sobre os Macondes de Moçambique, que, com o seu malogrado marido, iniciou há anos. Disse-nos em Novembro findo, que já tinha conseguido reunir mais de quinhentas fotografias de esculturas maconde dispersas por colecções particulares e por museus nacionais e estrangeiros.
Seja qual for, porém, o valor que se atribua à moderna escultura maconde, ela não pode por mais tempo ser entre nós ignorada.
Ao que se nos afigura, há a maior conveniência em chamar a atenção dos nossos artistas para os novos estilos que souberam criar alguns dos seus conterrâneos.
Terminamos, fazendo sinceros votos para que nos comuniquem as suas impressões ou esclarecimentos adicionais, os leitores interessados neste momentoso assunto.
A.Rita Ferreira
~ Fim do Artigo ~