As Trinta Mulheres De Muzeleni

Ainda “As Trinta Mulheres de Muzeleni”

por

A. Rita Ferreira

(Texto corrigido)

Uma desesperada carência de tempo, de disposição e de oportunidade obstou a que apresentássemos, à consideração dos intervenientes, algumas despretensiosas notas sobre a última peça teatral de Lindo Hlongo, “As Trinta Mulheres de Muzeleni”, brevemente em reprise.

Adiantou-se a nós Albino Magaia com uma crítica de admirável elevação, feita sob uma perspectiva de “conflito de culturas”. Há nela, contudo, algumas inexatidões como, por exemplo, a contida nesta afirmação: “em linhas gerais o documentário não é mais que um retrato cálido da cultura Banto em que se integram os negros da África Austral”. Não se deve esquecer que o termo “banto” designa um grupo de línguas e não de culturas. Entre os chamados “bantos” encontram-se variadas culturas, por vezes com grandes diferenças, tal como entre nós, separadas pelo Zambeze, as patricêntricas (casamento virilocal e sucessão patrilinear) e as matricêntricas (casamento uxorilocal e sucessão matrilinear).

Neves Adriano Afonso também abordou o tema com distinção. Não merecia, decerto, as agrestes palavras com que Albino Magaia comentou a sua contribuição.

Lindo Hlongo – genuinamente preocupado com os problemas sociais que afligem as gentes da etnia a que pertence – fez um esforço digno de elogio para transmitir a sua mensagem com verdade e honestidade. Nessa linha de acção, procurou elucidar-se sobre os grandes acontecimentos históricos do século passado que resultaram na devastação do sul de Moçambique por quatro grupos de invasores de origem Vangune (Nguni) e pelos seus súbditos Vandaus. A decisão tomada por Ngungunhane de transferir a sua capital para o vale do Limpopo, acompanhado por milhares de famílias vandaus, deu origem a um espantoso desenvolvimento de cultos de possessão cuja vitalidade se mantém, até ao presente, no próprio meio urbano. E para não errar quanto aos complexos paramentos, canones e rituais de que devem cercar-se os especialistas conhecidos por mungoma e nhamussuro (cujos métodos nos nossos psiquiatras deviam estudar) teve a sabedoria de recorrer a Sansão Mutemba, espírito de investigador que incitamos a não interromper as crónicas que em tempos iniciou sobre esse intrincado fenómeno e outras crenças no sobrenatural.

Apesar disso, cremos discernir na peça alguns pontos vulneráveis que passaremos a mencionar. Fazemo-lo movidos não por preocupações artísticas ou estéticas, mas pela busca de rigor e objectividade que temos procurado seguir.

Opinamos, em primeiro lugar, que o autor não acentuou como cumpria as funções de Muzeleni como chefe tribal. Essa figura central não surge a resolver litígios, a receber oferendas, a distribuir a terra comunal, a fazer preces aos seus antepassados-deuses a favor dos súbditos, rodeado por uma pequena corte de indunas e conselheiros. Apenas nas primícias do fruto sagrado, na célebre luma bu kanhe, se infere que detinha poderes rituais. Deve frisar-se que, nas condições ancestrais, a poligamia desmesurada era prerrogativa dos grandes chefes, cujo prestígio e poderio variavam em razão directa donúmero de esposas, visto que não só cumpriam os seus deveres maritais como também consolidavam alianças políticas.

Em segundo lugar, a conversão do seu herói ao cristianismo também se nos não afigura convincente. Muzeleni seria decerto homem de idade madura, condicionado desde a infância a temer os antepassados-deuses e retirando evidentes privilégios e satisfações da sua condição de polígamo. É crível que nesta posição sólida cedesse com tanta facilidade às prédicas esporádicas e dificilmente assimiláveis de um missionário fanático, distante e enfatuado? Ousamos aventar que essa conversão seria mais facilmente digerida pelo espectador atento, se fosse radicada em interferências sobrenaturais, como seja a injunção de qualquer adivinho depois de lançar os ossículos. Porque não aproveitar a longa e talvez dispensável sequência inicial de rituais e cerimonias baseados nas crenças mágico-religiosas, para fazer surgir, por exemplo, o espírito de um guerreiro angune já convertido ao cristianismo que, depois de atormentar Muzeleni com doenças e infortúnios, exigisse finalmente a sua conversão? Recordemos que na corte de Ngungunhane os missionários suíços já recrutavam prosélitos.

Lindo Hlongo, homem de inegáveis virtudes morais, manifestou na temática a sua preocupação perante a possibilidade das vinte e nove esposas repudiadas serem forçadas a recorrer à prostituição para conseguirem sobreviver com a respectiva prole. Duvidamos que assim acontecesse na vida real. Recordemos que todas cultivavam as suas parcelas e, ainda casadas, delas retiravam produção suficiente para alimentarem os filhos, o marido e, ainda, os inúmeros hóspedes que habitualmente fervilhavam nas povoações abastadas. A solidariedade da família extensa – esse magnífico valor africano – lá estaria para lhes valer. A confrangedora verdade é que as criaturas que se habituaram a comercializar o seu corpo dificilmente se convencem a mudar de vida mesmo quando, em países de poligamia proibida, dispõem de instituições assistenciais e beneficiam de avançados sistemas de segurança social.

Ao que se nos afigura, o autor também não deveria ter esquecido outra espécie de problemas: os levantados pela existência da poligamia quando desmedida e monopolizadora. Porque numa estrutura demográfica normal, o facto de um poderoso se arrogar o direito a possuir trinta mulheres, significa que 29 homens ficam privados da possibilidade de contraírem matrimónio. Na verdade, como já tivemos oportunidade de acentuar, no Sul do Save o censo de 1970 mais uma vez indicou uma estrutura aberrante com apenas 611.000 mulheres solteiras para 716.000 homens no mesmo estado civil, 423.000 mulheres casadas com 376.000 homens, 23.000 mulheres e 13.000 homens divorciados e, como anteriormente, um elevadíssimo número de viúvas 122.000 a que correspondem apenas 16.000 viúvos. Cifras que permitem extrair importantes ilações, situadas, no entanto, fora do âmbito deste escrito.

Isto não quer dizer que sejamos contra a poligamia (que caiam sobre nós os vitupérios e as fulminações das Igrejas Cristãs!). Não só a achamos em certos casos justificável (como quando a irmã fecunda vai complementar a irmã estéril, no lar do homem ansioso por deixar descendência) como pensamos que, quando livremente consentida, a herança da viúva por qualquer irmão classificatório do defunto representa uma forma valiosa de segurança social.

Na presente conjuntura de profundas mutações políticas em que terá de ser revogada ou radicalmente modificada uma enorme massa de legislação, parece oportuno rever as disposições do decreto que aboliu o levirato, disposições que aliás foram ignoradas pelo bom senso dos encarregados de velar pela sua observância. A verdade é que a poligamia é uma característica estrutural da organização familiar e social de milhões dos habitantes africanos de Moçambique e não pode ser suprimida pela simples publicação de alguns artigos e parágrafos no Boletim Oficial.

Terminamos por recomendar mais atenção aos vestuários e adornos tradicionais. Por exemplo, nada teria custado confeccionar reproduções mais perfeitas da célebre coroa de cera, de secção cilíndrica, outrora envergada com tanto orgulho pelo veterano. O simulacro que Muzeleni usa na peça, pode eliminar a aparência de respeitabilidade.

As observações que deixámos expostas não retiram valor à obra de Lindo Hlongo e, sobretudo, ao seu grande “finale” em que são postos em dúvida alguns dos valores mais queridos da nossa civilização quantitativa da técnica e da ciência aplicada. Digno da maior admiração foi o esforço colectivo quer dos artistas amadores quer dos organizadores obrigados como foram a superar formidandas dificuldades.

Foi com extrema satisfação que – ao invés do sucedido com a primeira peça de Lindo Hlongo – vimos audiências predominantes africanas, numa demonstração vívida da existência de gerações cada vez mais despertas para os problemas candentes que directamente as afectam.

In “Notícias” (Lourenço Marques)

10 de Junho de 1974