O Problema Do Lobolo

II Parte

In Notícias 18/05/1971

É sabido que as invasões dos Angunes, (popularmente conhecidos por Vátuas ou Zulos), se prolongaram por quase todo o século XIX, causaram perturbações ou modificações profundas em muitos aspectos da vida dos nativos do sul e centro de Moçambique. Uma das mais importantes foi, sem dúvida a impossibilidade em que as famílias dos jovens se viram de pagar o competente lobolo por meio de gado. Este foi quase totalmente exterminado pelas guerras, saques e pestes.

Dioclesiano das Neves, esse extraordinário pioneiro cujas obras bem mereciam ser reeditadas, narra o facto de Sochangana ou Manicusse ter sido forçado a alterar a sua decisão inicial de se estabelecer definitivamente no país dos Cossas, por a mosca Tsé-Tsé lhe haver dizimado muito gado. Lembremo-nos que a cultura Angune era, predominantemente, a de pastores de bovinos e que a posse do gado era o principal padrão para medir a riqueza e o poder. Depois, durante as repetidas incursões, o gado apreendido, constituiu sem dúvida, o alimento preferido dos guerreiros invasores ou incorporados. Era o tipo de alimentação mais conveniente para quem era forçado a constantes deslocações e estrémuos esforços. Por exemplo, na incursão que Muzila fez à região entre o rio Incomati e os montes Libombos, a força penetrou inesperadamente nas povoações, matou os chefes e levou todo o gado, composto por 500 bois e 200 carneiros. Esse gado foi a salvação dos seus regimentos, já que nada tinham para comer. A ânsia dos invasores angunes, em obterem gado era de tal ordem que não hesitaram em entrar em conflito entre si e até com os portugueses. Sabemos por exemplo, que a recusa dos habitantes de Manica de entregarem a um regimento de angunes, comandado por um tal Caiongue, o gado dos nativos da região que tinham vindo recolher-se ao forte, foi a única causa de assalto que o vitimou.

Quanto às consequências destes roubos ou abates sistemáticos do armentio dos thongas, Junod é bem conciso:

“ a falta de bois, causada provavelmente pelas guerras com os zulos, foi, sem dúvida, a razão por que os substituiram por enxadas, que se empregaram de 1840 a 1870… Mas as enxadas foram, por sua vez, substituidas pela poderosa libra esterlina… Em 1870… foram para Kimberley muitos indígenas… e a moeda de oiro começou a espalhar-se pela tribo… nos princípios do século actual o preço médio do lobolo eram de dezoito libras nos arredores de Lourenço Marques…”

A rapina do gado dos autóctones parece haver assumido ainda maiores proporções entre o Save e o Zambeze, território que foi devastado, simultaneamente, pelos cinco grupos de Angunes, rivais entre si, foragidos do Natal e Suazilândia no princípio do século, grupos comandados por Sochangana, N´gaba, Zuanguendaba, Nguana e Mzilikazi.

Nesta conjuntura, o trabalho assalariado veio permitir a obtenção, sem custo excessivo, do lobolo, outrora tão difícil para os rapazes sem irmãs, com a não pequena vantagem de que, não tendo as mulheres sido obtidas por troca de bens familiares, desapareciam as complicações com os parentes. Na sua descrição dos ritos matrimoniais, Junod aponta que, não raro, os jovens, durante o período do noivado, partiam para as minas a fim de completarem o lobolo.

Que o pagamento do lobolo em libras se tornou geral em todo o sul do Save, atestam-no também os relatos portugueses. Caldas Xavier, que explorou o Limpopo em 1890, referindo-se às populações ribeirinhas vitimadas pelas depredações dos Angunes notou que “ os rapazes destas desgraçadas tribos emigram e, grande número para o Tranvaal em procura do trabalho pago a libras esterlinas, que lhe são necessárias para obterem mulheres em casamento”. Ainda mais preciso é Matheus Serrano ao informar que, no mesmo ano, ao norte do Limpopo, o “dote” das noivas era 100 enxadas ou 20 libras oiro, devendo o pretendente dar ainda à futura sogra, uma a cinco capulanas e ao futuro sogro, uma espingarda. Também Gomes da Costa, falando logo após a prisão do Gugunhana, dos changanas angunizados do distrito de Gaza, refere que o lobolo era, entre eles, de 12 a 20 libras de oiro ou de 6 a 10 cabeças de gado.

Ainda hoje, a proporção dos trabalhadores que emigram para a Àfrica do Sul e a Rodésia, atinge mais alto nível entre os jovens solteiros ou recém-casados que partem com o objetivo de juntar ou completar a importância do lobolo.

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